quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Lição 6: A animação cultural como processo, estratégia e instrumento para o desenvolvimento

Nas notas do dia 11 de Dezembro, abordámos a animação cultural enquanto «processo», e agora vamos também abordá-la enquanto «estratégia» e «instrumento», dividindo nestas três componentes analíticas uma mesma realidade conceptual.
O que implica, e antes de avançarmos mais, fazer nova síntese conceptual no árduo trabalho de encontrar uma definição de animação cultural.

Convém neste momento alertar para o facto de podermos abordar a animação sociocultural em três distintas mas complementares modalidades: A Modalidade Social, a Modalidade Educativa e a Modalidade Cultural. Destas três modalidades se compõe a animação sociocultural.

Nas nossas aulas temos centrado o olhar na modalidade que dá nome ao nosso seminário: a modalidade cultural da animação. E interpretado essa modalidade na óptica do técnico municipal de cultura, relembramos uma vez mais.

Ora é no âmbito das referidas ópticas e perspectivas do parágrafo anterior, que importa agora sistematizar um pouco mais a informação.

A) A modalidade cultural da animação sociocultural, e chamando aqui o pensamento escrito no manual de estudo recomendado, afirma a animação com a função da promoção cultural, contribuindo para o desenvolvimento da expressão, da criatividade e da participação cultural e artística. Centra-se na actividade ou produto e acontece em espaços culturais como casas de cultura, bibliotecas, museus, centros culturais, etc.

B) A animação cultural como processo, estratégia e instrumento para o desenvolvimento. A animação cultural é um «processo» para uma cultura de intervenção, procurando gerar processos de participação; é uma «estratégia» a seguir para a implementação de um modelo de desenvolvimento local específico, que assenta numa participação colectiva geradora de responsabilização dos indivíduos na gestão e direcção dos seus próprios recursos; é «instrumento» a utilizar para estimular, motivar o exercício da participação dos cidadãos.

Queremos então dizer que as autarquias deverão criar espaços (físicos) e momentos (tempos) para o encontro das comunidades com as suas pessoas e das pessoas com as suas comunidades e estimular através também de iniciativas culturais a participação activa das populações alocando recursos materiais e humanos para promover essa participação; facilitando as iniciativas privadas que vão nesse sentido (estimulando a abertura de cafés e de esplanadas, sensibilizando para as artes de rua e no espaço público; valorizando a sinalética dos equipamentos espaços públicos e a divulgação de iniciativas associativas de forma digna e responsável, promovendo e valorizando o voluntariado, etc.).

Assumir uma cultura de intervenção e não apenas uma cultura de difusão, por um lado, promover uma cultura de intervenção e não apenas uma cultura de diversão, por outro lado, convida as autarquias (a óptica que ora nos interessa) a identificar objectivos e a adoptar metodologias de desenvolvimento cultural centradas nas actividades que promovem encontro e participação das pessoas e com as pessoas.

Quais os sentidos das actividades a implementar?

Trabalhar, pois, no sentido de dar às pessoas, estimular nas pessoas, a consciencialização de uma pertença global enquanto lógica centrada na vontade comum. No fundo evitar que as actividades e os acontecimentos "caiam" de repente e sem mais, em "cima das pessoas". Ora é pois a busca de um sentido, de um código, de um simbólico colectivo que há-de ser encontrado pelas pessoas no complexo mundo da incorporação dos sentidos, da quebra dos preconceitos, etc.

Repetimos: faz parte da animação cultural, enquanto processo, criar espaços de encontro para a comunicação entre as pessoas e os grupos; faz parte da animação cultural, enquanto estratégia, estimular a participação das pessoas mas responsabilizando-as pela gestão dos recursos comuns; faz parte da animação cultural, enquanto instrumento, estimular o exercício dessa participação através do diálogo, da negociação, da parceria associativa traduzida em apoio a associações, partidos políticos, instituições, redes inter-associativas, seminários, etc.

Convictos que estamos de que as actividades culturais tornam os territórios mais vivos, subscrevemos a ideia de que os territórios mais vividos culturalmente são mais atraentes para as populações que lá vivem e para as que os visitam; sedimentam um sentimento individual e colectivo de pertença e auto-estima; constituem uma campo aberto para as ligações com outras regiões ou territórios e com outras culturas associadas, facilitadoras da incorporação da inovação.

A animação cultural utilizada, enfim, como uma ferramenta especialmente útil para a implementação de projectos e programas de desenvolvimento integrado e participado. Vai, aliás, nesse sentido, a interpretação conjugada e desejável da Agenda 21 Local e da Agenda 21 da Cultura que explicitam melhor a ideia de que o desenvolvimento integrado e participado será um desenvolvimento sustentável. Quer dizer a dimensão cultural é um indispensável pilar do desenvolvimento sustentável ao lado da economia, da coesão social e do ambiente.

Agenda 21 Local é resultado da Conferência Eco 92, no Rio de Janeiro em 1992.
Agenda 21 da Cultura foi proclamada no âmbito do IV Fórum de Autoridades Locais para a Inclusão Social em Barcelona, Maio 2004

Com efeito, a animação cultural provoca e auxilia o aparecimento de artistas e de criadores empenhados no desenvolvimento de projectos e actividades culturais orientadas para as comunidades; a animação cultural contribui para a valorização dos bens patrimoniais, ao nível da sensibilização das populações para a preservação e valorização do património cultural (material e imaterial) ou mesmo para a sua revitalização, de acordo com novas necessidades sociais; a animação cultural encoraja o pensamento crítico, ao basear a sua intervenção na ideia de que todos podem e devem participar na construção da identidade cultural, combinando recursos locais com participação cultural, acentuando a partilha de responsabilidades entre as várias partes envolvidas e dando mais expressão à vida quotidiana das comunidades locais.

Localmente parece haver uma consciência cada vez maior de que as actividades culturais podem ser um motor para o crescimento económico e para a inclusão social e cultural, para a mudança de atitudes e de comportamentos relacionados com as novas formas de pensar e viver nos territórios, quer urbanos, quer rurais.

Quem são os intervenientes destes processos de vivificação cultural dos territórios?
Uma longa e talvez infindável lista de possibilidades mas, e no essencial, serão:
As pessoas
As instituições, das quais em destaque as autarquias
Associações e colectividades locais
Instituições sectoriais, como, por exemplo, museus
Universidades e centros de investigação
Operadores turísticos
Teatros, cinemas, galerias, cine-clubes
Outras parcerias (incluindo empresas, por exemplo)

As práticas culturais para os municípios, nome do nosso mestrado são, antes de mais, aquelas que permitem pensar e operar no alargamento da participação das pessoas na vida cultural. Pensamentos e actos que as políticas culturais municipais devem implementar, em nome da diversidade garantia de melhor liberdade.

A estes propósitos considero interessante a transcrição das seguintes palavras:

João Fernandes, director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves diz: «Os portugueses constroem muitos falsos consensos. Muito raramente lemos críticas de alguém que assuma a sua posição com frontalidade, sem receio de qualquer tipo de polémica (…). Um outro problema é o afunilamento cultural. Não obstante os portugueses estarem mais cientes de que o acesso à arte, à cultura, é também um direito, chega a ser penoso verificar que na sociedade portuguesa o apoio à criação artística é visto sob um prisma de subsídio de dependência». «Subsidiar as artes minoritárias», diz António Pinho Vargas é financiar os públicos minoritários e financiar o aumento da possibilidade de escolha, sob pena de haver um défice de cultura». Empenhado em descodificar os códigos de poder no campo artístico, Pinho Vargas estabelece uma divisão entre o antes e o depois dos anos 90. Até àquela década, a Fundação Gulbenkian dispunha de uma hegemonia tal que conseguia condicionar a expressão de diferentes opções estéticas. Depois, com os grandes eventos culturais organizados pelo Estado, como a Europália, a Lisboa Capital Europeia da Cultura, Expo 98, Porto 2001, abertura do Centro Cultural de Belém, Fundação de Serralves e Casa da Música, a Fundação deixou de ter o quase exclusivo e passou a ser uma instituição entre outras. Daqui decorreu, explica Pinho Vargas, «que o campo da música contemporânea, durante algum tempo concentrado em torno de Emanuel Nunes e Jorge Peixinho», passou a assistir a uma diversificação das escolhas. As instituições produziram alternativas e abriram-se a uma maior multiplicidade estética. «Dessa diversificação das tendências resultou uma maior possibilidade de expressão e, nesse sentido, de liberdade por parte dos compositores. Logo, o estado da liberdade é hoje muito melhor». In Revista Única, Expresso, 6 de Dezembro de 2008.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Lição 5: Estruturação de uma intervenção de animação cultural

A questão que ora nos convoca é a seguinte: Através da promoção de actividades culturais é possível recriar vida e sentido colectivos em espaços que deles se encontram esvaziados? No âmbito da animação cultural a cultura surge como um dos recursos estratégicos para dinamizar e potenciar o envolvimento, a participação, dos cidadãos na animação e requalificação dos territórios, contribuindo assim para o desenvolvimento e para a sustentabilidade desses mesmos territórios. E contribuirá também para, progressivamente, transformar o Espaço Público num espaço de maior participação, capaz de expressar sentimentos colectivos.

Com efeito, um território, ao deixar de ser vivido, deixa de ter sentido.

Assim a animação cultural deve contribuir para a afirmação dos sentidos possíveis de cada e em cada território demarcado. Entendendo o território, cada território demarcado, como um espaço vivido onde se opera efectivamente desenvolvimento. E desenvolvimento é, antes de mais, neste contexto, a possibilidade de construir laços de cidadania aberta, activa, participada, com vida, segurança, auto-estima, diversidade, respeito por si próprio e pelos outros, segurança.

Em regra a Animação Cultural é chamada a intervir, no âmbito municipal, em zonas da cidade esquecidas e mal amadas, com pessoas diferentes e com muitas pessoas. Mas passámos a ideia de que compete aos técnicos de acção social e de acção cultural, em qualquer autarquia, interrogar todos e quaisquer territórios à sua guarda, pois em todos eles podem existir, e existem com certeza, situações de não vivência, de não participação, de humilhação, de solidão, de incomunicabilidade, de medos. Porque não pensar na zona do Restelo, em Lisboa, para uma intervenção de animação cultural? Que tipo de problemas encontraremos? Que pontes possíveis entre o Restelo e o Martim Moniz?

Registamos desde já a preciosa informação passada pela Ágata Xavier durante a aula, pertinente e inspiradora: muitas raparigas chinesas que habitam no Martim Moniz vão trabalhar para casas do Restelo, de modo a ensinarem a língua chinesa aos filhos pequeninos dessas famílias abastadas!

Frémont, em 1976, escrevia. «O território é, antes de mais, o resultado da materialização das relações que se estabelecem no espaço e com o espaço pelas comunidades que o habitam, ou seja, é o conjunto das inter-relações sociais espacializadas». Remete-nos pois para a noção de espaço vivido, com práticas e vivências sociais que nos remetem para o domínio das representações e dos imaginários. (A. Frémont, 1976, La Région, espace vécu, PUF, Paris)

Convém então compreender, explorar, a noção de habitabilidade, de habitação de um lugar – como sabemos se alguém habita um espaço? Esta questão não foi abordada na aula, nestes termos, mas vem a propósito das relações mais ou menos efémeras ou definitivas que se estabelecem entre as populações que habitam o Martim Moniz e o espaço do Martim Moniz. Sentem que habitam esse espaço? Querem habitar esse espaço? Então o que significará «habitar»?

Invocámos a noção de «não-lugar» de Marc Angé. Um «não-lugar» é um espaço de passagem incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade, um espaço não-relacional e onde a herança cultural dificilmente pode existir. Um território que, apesar de tudo, é um território vivido se bem que de forma sofrida e em solidão. Vivido por indivíduos que em muitas situações desenvolvem laços de solidariedade, mas que, no entanto, são relações efémeras e voláteis, que existem enquanto aquelas pessoas permanecem naquele espaço e que tal como surgiram, acabam e desaparecem. (Augé M, 1992, Non-Lieux: introduction à une anthropologie de la surmodernité, Seuil, Paris).

Estas reflexões foram sempre colocadas em referência concreta ao território do Martim Moniz, objecto do trabalho final de avaliação.

Sobre a estruturação do processo de trabalho com vista a detectar que tipo de intervenção de animação cultural realizar, e embora o manual de estudo recomendado tipifique metodologias processuais para desenvolvimento e implementação de projectos de intervenção, sintetizámos no essencial os aspectos seguintes, uma vez que os nossos discentes são, ou serão, técnicos municipais de cultura e não profissionais da animação sociocultural.

A) Enquadramento - Qualquer técnico municipal deve procurar enquadrar o território onde se pretende intervir partilhando informação sobre o território e o tecido humano que nele encontra. Deve estar disponível para todas e quaisquer interferências exteriores resultantes dos contributos locais, indagar de forma directa e presencial a vida quotidiana do território seleccionado, concluindo pela necessidade ou não de uma intervenção municipal no sentido de potenciar mais, melhor ou diferentemente, e porquê, as práticas de vida desse determinado território, qualitativamente apreciado e indagado.
B) Intervenção - Fases do processo sobre o território intervencionado
Fase I – Reconhecimento – As primeiras visitas e as primeiras impressões que permitirão a criação de um embrião de processo. Exige-se a mais cuidadosa e rigorosa análise do território onde se pretende intervir, conscientes de que esse território é constituído por factores essenciais, com destaque para as pessoas que o fazem, interpretam e experienciam quotidianamente, a sua topografia, a sua toponímia, a sua imagem urbana, as suas idiossincrasias especiais. Para lá do reconhecimento do território, o reconhecimento da História e das “estórias” desse território. Fase II – Pensamento e Preparação – Recolhidas as primeiras impressões, pensar sobre elas, compará-las com casos nacionais e internacionais, organizar encontros e reuniões com vista ao estabelecimento de parcerias académicas e institucionais, parcerias associativas, escolares, amadoras, profissionais, etc.
Fase III – Apresentação mediática e local do que se pretende fazer nesse território ou espaço público.
Fase IV – Produção aberta pensando no conjunto de actividades e de eventos de animação cultural a concretizar, recolhendo e programando iniciativas dos habitantes do território.
Fase V – Evento – realização em determinadas datas de um conjunto de actividades a que chamamos de Evento e que permitirá a apreciação e participação do público habitante e forasteiro enquanto «espectador» desse evento. A arte chamada a incentivar e a provocar a animação urbana enquanto reflexão sensível e surpreendente, criando assim surpresas. A arte que não deverá ser meramente ornamental mas que seja capaz de entrar no jogo do ambiente de instalação ou apresentação.
Fase VI – Avaliação – Indispensável em qualquer caso de animação cultural.

Ao longo de todo o processo o mais importante é a criação de um capital de confiança que não pode ser desbaratado em momento algum, mesmo e sobretudo, após a realização do evento.

Sempre que se verifica a ocupação do espaço público devemos pensar que essa ocupação deve ser feita de modo responsável, enquanto espaço de cidadania;

Que deve ser estabelecida uma relação de compreensão e complementaridade entre instituições, profissionais e públicos, a partir de um substrato de carácter ético, estruturante do processo.

Que o Evento no seu antes, durante e depois consiga trazer algo de diferente, de estimulante, ao quotidiano das pessoas que habitam o território. Procurando dialogar com as pessoas todas das mais simples às mais importantes. Levar as pessoas a olhar, a ouvir ou até a criar, a intervir, a debater.

Programar eventos culturais de carácter transdisciplinar.

Programar eventos ou projectos estruturantes.

Criar e projectar uma imagem gráfica que delimite o território de intervenção, com sinalética específica, pontos de informação, mapas com percursos e praças específicas, alteração momentânea do nome das ruas e das praças, etc.

Elaboração contínua de registos e edição de livros ou outros suportes de memória futura.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Lição 4: A Animação Sociocultural como processo

Ainda não definimos o que entendemos por Animação Sociocultural, isto é, qual dos múltiplos conceitos existentes é aquele com que mais nos identificamos. E não é agora que o vamos fazer. O que nos importa, para já, é irmos compreendendo o possível conceito e as suas múltiplas perspectivas operacionais, enriquecedoras do conceito propriamente dito.

Assim, vamos entender a animação sociocultural como um processo para a construção de uma cultura de intervenção (local) e como processo para uma sistematização ou consciencialização e interpretação de conceitos como Liberdade, Cultura, Pertença Global. O que desejamos, enfim, é o encontro, através da animação sociocultural, de uma «vontade comum», com uma História sistematizada, que dê «sentido» aos processos de desenvolvimento local. Ou seja, que se mobilize uma consciência e uma cultura histórica.
Contribuir, como dizia Saint-Exupéry, para a criação de uma «rede de laços que nos transforma».

Ora é a propósito do entendimento da animação sociocultural como um processo para a consciencialização e para o encontro histórico que se trabalham, por exemplo, as memórias. A memória entra na coordenação das intervenções para a qualificação da vida das pessoas – o que fomos, o que somos, o que seremos. Trabalhar com a memória das pessoas e dos colectivos de pessoas ajuda a função da animação sociocultural no sentido de transformar pessoas e colectivos em agentes e protagonistas do seu próprio desenvolvimento.

Uma das técnicas possível para estimular o processo de reconstrução das memórias é a técnica da fotografia. A fotografia, e as memórias associadas, geram ou podem gerar um processo de participação, criam espaço para a comunicação dos grupos e das pessoas.

Neste pressuposto, os alunos foram desafiados a pegar num documento de identificação – com fotografia – e escrever um trabalho sobre as memórias associadas a essa fotografia.

Recomenda-se a leitura de:

«A Câmara Clara», Roland Barthes, 2006, Edições 70

Lição 3: Da democratização à democracia cultural para alcance do desenvolvimento cultural

A democratização cultural, como resulta da leitura do manual de estudo recomendado, aposta num conjunto de políticas culturais que estruturam programas de difusão cultural, enquanto a democracia cultural apela para a importância das políticas que dão ênfase à potencialidade das comunidades e, para tal, usam como principal instrumento de trabalho, a animação sociocultural.

Ambos os conceitos e ambas as políticas associadas implicam a consciencialização, por parte dos políticos do século XX (segunda metade) e XXI, da missão do Estado Providência em zelar pelo acesso à Cultura. E as populações dos Estados ocidentais assim esperam.

Política Cultural é o quê? Consiste essencialmente, e inspirando-nos no conceito de André Malraux, na definição de objectivos sistemáticos e estruturados do papel interventivo e regulador do Poder de Estado nas esferas cultural e artística, servidos por meios financeiros, técnicos, humanos, autónomos, que subtraem a circulação das chamadas grandes obras às leis mercantis da oferta e da procura.

Podemos e devemos criticar esta noção de Política Cultural sobretudo na questão, a meu ver, das chamadas grandes obras – pela vocação para uma autoridade decisória e superior que o conceito implica, mas é um bom ponto de partida. Que outras definições de Política Cultural sugerem os alunos de outras possíveis leituras? Querem pensar nisso?

Relembramos que nas aulas explicámos como a escola francesa, digamos assim, da segunda metade do século XX, e seguindo o pensamento de André Malraux, apontava para a imperiosa necessidade da difusão cultural, uma vez que o seu pensamento se centrava, neste aspecto, na preocupação em tornar acessíveis as obras da Humanidade ao maior número possível de pessoas. O desejável encontro entre Arte e Homem. Acreditava-se que a combinação entre instrução, educação popular e acção cultural (razão para a construção das casas da cultura, em França) conduziria a um aumento do consumo da cultura, por parte das pessoas. Ora, logo nos anos 60 do século passado, Pierre Bourdieu, através das suas teorias dos campos, vem declarar a falência deste modelo, a que o reconhecimento mais recente da existência de um «não público» continua a dar razão. O não público significa que a democratização cultural não conseguiu atingir o seu objectivo principal: transformar as pessoas em consumidores culturais ou, melhor, em públicos de cultura.

No fundo, o sucesso ou o fracasso deste modelo resulta da discussão que se possa fazer sobre os públicos e o posicionamento que sigamos face a possíveis conceitos de públicos, consumidores e comunidades. E se todos os públicos são legítimos nos seus gostos, como o voluntarismo associado por vezes à democracia cultural pode reivindicar, debatemo-nos com importantes questões qualitativas e de reconhecimento, mas se assumimos a necessidade de formar públicos e novos públicos já estamos a assumir uma lógica descendente e difusiva, apostando na recepção, por parte do maior número possível de pessoas, das escolhas de conteúdos de qualidade reconhecidos por parte de quem sabe o que é bom… Enfim, complexa questão! Que a nosso ver se problematiza de forma mais positiva quando entendemos o «mundo da cultura» como um «mundo de tensões», agradecendo aqui que se lembrem do que nas aulas sobre esta questão fomos falando com o bom auxílio, uma vez mais, de Bourdieu...

A escola americana, sobretudo através da Escola de Chicago, aponta mais para a necessidade da participação cultural no desenvolvimento das populações do que para a difusão cultural, estando portanto mais implicada com o conceito de democracia cultural. Falamos aqui da Escola de Chicago pelo seu pioneirismo no reconhecimento da existência de várias culturas ou «culturalismos», posição compreensível num Estado em que os cidadãos se ligam por uma identidade de traço de união.
Se entendermos a cultura, o bem cultural, não apenas como um «bem de consumo», mas também como um «espaço» para que os cidadãos possam formar a sua própria cultura, separamos, tecnicamente, a questão do «consumo cultural» associado à ideia de difusão, da questão do «espaço ou território cultural» associado à ideia de participação. Neste caso a cultura nasce das necessidades e aspirações das populações, de baixo para cima, de dentro para fora, o que implica políticas públicas capazes de estimularem processos de auto consciência por parte das populações, potenciando as suas capacidades, os seus conhecimentos e os seus saberes.

Os técnicos e políticos municipais deverão, pois, através da elaboração de Planos Estratégicos, implicar os destinatários na concepção das próprias políticas culturais e, através de Planos Operativos materializar, concretizar, projectos sociais e culturais. Muitos deles em resultado das vontades artísticas geradas por esses processos de participação – isto é, quando a criação parte da periferia e atinge o centro, quando os sistemas culturais se multiplicam para lá do modelo ou sistema de cultura oficial, ou do mainstream da indústria cultural...

Cremos que, em qualquer autarquia portuguesa, e sendo Portugal um país culturalmente muito paradoxal, o desenvolvimento cultural acontecerá tanto melhor quanto se combinem políticas de difusão e de participação cultural, assegurando em simultâneo os processos de democratização cultural e de democracia cultural.

Alertámos ainda para os perigos da democracia cultural: O populismo e o voluntarismo onde se pode facilmente esquecer a complexidade dos circuitos de construção, circulação e incorporação de sentido na obra de arte – a Arte, a apreensão de sentidos através da obra de arte, implica um compromisso entre artistas e públicos e os processos de democracia cultural não devem ignorar esta questão.
Compete assim, também, aos técnicos municipais, zelar para que as questões qualitativas e as regras dos jogos artísticos e culturais não sejam ignoradas ou abafadas pelos resultados quantitativos nem pelos deslumbramentos político-ornamentais.
O que não sendo fácil é uma missão à qual não deverão voltar as costas, insistindo.

Para lá do manual recomenda-se a leitura de:

«Da democratização à democracia cultural», de João Teixeira Lopes, Editora Profedições, Lda.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O trabalho final para avaliação é sobre o Martim Moniz

Porquê o Martim Moniz?

Olhando Lisboa e entre tantas das suas áreas «inspiradoras», escolhemos a «zona» do Martim Moniz para uma intervenção de animação sociocultural – ou, dizendo melhor, uma intervenção cultural.

Porquê? Primeiro porque nos pareceu ser a zona de Lisboa mais rica na mistura de territórios culturais, entendidos estes como territórios de acolhimento, residência, trabalho, comércio e troca de bens, produtos e serviços de cidadãos estrangeiros, mantendo estes as suas práticas quotidianas tradicionais. Com que regras? Com que dinâmicas? Como partilham entre si os diferentes territórios culturais o mesmo território geográfico?

Depois por ser uma zona de difícil intervenção devido à forte marginalidade que o Martim Moniz (também) acolhe. Mas sempre foi assim? Quando, como e porquê se transformou o Martim Moniz numa área de marginalidade? E quem são os marginais? E será mesmo uma área de causas perdidas? Deve uma autarquia considerar alguma das suas áreas de intervenção como uma área perdida? Perdida em relação a quê? Perdida para quem?

Enfim, que problemáticas, que potencialidades encerra o Martim Moniz?

Há quem escreva que o Centro Comercial da Mouraria, no Martim Moniz, é o lugar mais multicultural da cidade de Lisboa... mas será que ainda é? Está a parecer-nos que não… Talvez, por isso, seja altura de a Câmara Municipal de Lisboa olhar para esta realidade, que aparentemente tem ignorado, e potenciar, antes que seja tarde, as raízes que por aí, naturalmente, se foram desenvolvendo, vindas de outras paragens…

Portanto, ao escolhermos o Martim Moniz, escolhemos as suas potencialidades únicas, as suas riquezas e as suas misérias, as suas verdades, boas e más.

É essa riqueza que, do nosso ponto de vista, Lisboa deve acarinhar, mostrar e potenciar, de modo a que, sem artificialismos nem higienizações, se valorize um território urbano com forte história e carga simbólica para a cidade de Lisboa, aos pés do Castelo de São Jorge, terreiro extraordinário para o encontro das culturas do mundo.

Posicionamento dos Grupos de Trabalho
Cada grupo de trabalho deve posicionar-se de acordo com o objectivo do trabalho e partindo do pressuposto que, trabalhando no Município de Lisboa, lhe teria sido encomendado um estudo de animação cultural para implementação no Martim Moniz e zonas adjacentes.
Este exercício pode facilmente configurar uma situação real, pelo que os discentes devem ter esse facto presente na elaboração do trabalho sem, no entanto, esquecer a componente mais académica do mesmo.

Exercicio
1. Objectivo proposto pela Câmara Municipal de Lisboa
Apresentação de uma proposta de intervenção cultural para a área territorial do Martim Moniz, respeitadora e integradora das comunidades e territórios culturais e sociais que aí se identifiquem, capaz de contribuir para a sua qualificação sociocultural.

2.Metodologia de enquadramento para a apresentação e desenvolvimento da proposta
Identifique a zona territorial - geográfica para a sua acção / intervenção;
Identifique os principais objectivos a alcançar a curto, médio e longo prazo com a sua proposta de intervenção, após a análise quantitativa e qualitativa do território seleccionado;
Identifique a metodologia de trabalho escolhida e de acordo com os objectivos anteriormente apresentados;
Identifique a composição das equipas de trabalho que considere necessárias para a prossecução dos seus objectivos;
Identifique algumas actividades de cariz cultural capazes de contribuírem para a prossecução dos seus objectivos, esclarecendo claramente o «como é que esses projectos contribuem para a prossecução dos objectivos de curto, de médio e de longo prazo».

3.Número de páginas
O trabalho deverá ter um máximo de 25 páginas, feito por grupos de um mínimo de duas pessoas e um máximo de quatro pessoas.

4.Prazo de entrega
O prazo de entrega será definido na aula e posteriormente divulgado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Lição 2 Desenvolvimentos das aulas anteriores

Lição 2
Síntese de algumas questões discutidas nas aulas.

Comunidade Vs Sociedade
A Animação sociocultural privilegia o conceito de «comunidade» ao de «sociedade» pois ela dirige-se a colectivos concretos; o tipo de intervenção é sempre muito contextualizado em territórios concretos de modo a favorecer relações comunitárias. Portanto, o âmbito, o tipo de intervenção e a finalidade da animação sociocultural referencia-se á ideia de comunidade.

Variações à volta dos significados de animação, animado, animador, animar
Animação = acto ou efeito de animar, vivacidade, entusiasmo, viveza.
Animado = dotado de animação, com alma, movimentado, entusiasmado.
Animador = aquele ou aquela que anima, o que anima, que faz nutrir esperanças.
Animar = dar alma, dar vida a…, alentar, encorajar, cobrar alento, resolver-se.
O jogo de significados permite-nos olhar para a animação sociocultural como um conjunto de iniciativas conjugadas e conjugáveis no sentido de contribuir para a resolução das pessoas entre si; apela à viveza e á participação das pessoas, ao seu movimento, à sua existência com alma.

Os modelos de cultura
Discutimos a questão do modelo hierarquizado de cultura, que contempla a sua classificação em 3 tipos ou classes, a cultura oficial, a cultura de massas e a cultura popular assumindo que, em regra, se tem correlacionado a animação sociocultural com a cultura popular. Resta saber o que é a «cultura popular».
Considerámos que posteriormente se terá passado para um modelo sincrético ou de cruzamentos, entre as anteriores divisões ou tipos de cultura, mas estamos em crer que novas divisões se estabelecerão, nomeadamente em consequência de uma cada vez mais evidente divisão entre mobilidade real e mobilidade virtual, conduzindo a dois tipos de desenvolvimento social (logo cultura) distintos… aliás, o que aqui também nos interessava é enquadrar o pensamento no sentido de estabelecer uma relação entre cultura e o contexto da história social, da qual aquela é consequência, por um lado, e indutora, por outro.

Comunidade Vs Público Vs Massa Vs Comunidade Global Vs Audiências Parciais
Da coincidência quase perfeita entre Comunidade e Público, onde havia um código comum de decifração e de criação, passou-se para uma comunidade com diferentes públicos, correspondentes a divisões sociais profundas e não comunicantes, evoluindo-se para uma sociedade de consumo em que grande parte dos diferentes públicos se envolveu na constituição de uma massa útil às indústrias culturais e que permitiu, por sua vez, a criação da chamada comunidade global a qual, porém, se viu forçada a evoluir no sentido das audiências parciais... Fruto do desejo de raridade e de diferença – se não podes ser o melhor, ao menos sê diferente!... Ainda assim, ao serviço das industrias culturais.

Massa – Comunidade – Comunhão
A importância da definição de formas de sociabilidade de Georges Gurvitch e do seu conceito de Fusão Parcial ou «Nós». Consoante o seu maior ou menor grau de fusão, assim estaremos face a um «Nós» confundível com uma Massa, com uma Comunidade ou com uma Comunhão.
As comunidades serão mais estáveis e permanentes do que as massas e do que as comunhões. Consistem no querer ou no dever viver em conjunto de um grupo permanente, estruturado, possuindo domínios comuns, tradições, costumes. O grau de fusão é mais forte do que se passa nas Massas mas mais fraco do que aquele que acontece na Comunhão. Mas como o pressuposto da Comunhão é, em regra, a existência de uma «crise», o tipo de fusão e de «nós» decorrente da Comunidade é o que mais nos orienta neste contexto da animação sociocultural.

Art Worlds
ou Teoria dos Mundos da Arte, defendida por Howard Becker em 1982, interessa-nos devido à quebra de «aura artística» do artista e da sua arte. Devido à dessacralização do trabalho artístico e do “génio individual do artista” que essa teoria provoca, por via do “alargamento” da noção de arte e de artista – assumindo-se que a obra de arte inclui todos os que concebem, os que executam, os que fornecem os materiais e os que formam o público. O que Becker propõe é «uma análise do espaço artístico cujo foco de interesse se encontra mais na cooperação entre os indivíduos que realizam as obras do que nas obras elas próprias, ou nos seus criadores convencionalmente definidos». O artista é apenas mais um entre muitos outros sem os quais o seu trabalho não existe. Por outro lado, toda a importância dos «comportamentos desviantes» face aos «comportamentos esperados» que Becker também estudou, é da máxima importância para a colocação das problemáticas da animação sociocultural. Como, aliás, também já vimos no ciclo anterior a propósito da Programação Cultural.

A urgência da transcendência da noção de cultura popular
Cremos fundamental que a Animação Cultural reflicta sobre a noção contemporânea de cultura popular já afastada do antigo modelo de alta, média e baixa cultura, ou cultura popular. Há que ter capacidade para «descontextualizar» e «recontextualizar» situações e obras, significados das culturas populares, assumindo o jogo das intertextualidades ou da relação entre textos, o jogo de citações e de pastiches, no sentido de que é competência do artista criar obras a partir da reunião e da colagem de trabalhos pré-existentes. Ou seja, é possível aceitar a música pimba, por exemplo, na perspectiva de que ela nos diz algumas coisas sobre os modos de vida de determinadas pessoas…O que nos inspirou a ida ao cinema…

Visionamento do filme «Meu querido mês de Agosto» de Miguel Gomes.

O conceito de animação sociocultural - o nosso primeiro contributo estruturado, a partir da noção da Unesco
Avançámos também com a uma primeira definição de animação sociocultural, socorrendo-nos da definição da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura: «a animação sociocultural é um conjunto de práticas sociais que têm como finalidade estimular a iniciativa, bem como a participação das comunidades no processo do seu próprio desenvolvimento e na dinâmica global da vida sociopolítica em que estão integrados». Para reforçar ideias anteriores de que Política, Participação, Espaço Público e Animação Sociocultural são conceitos que se sustentam mutuamente, cabendo à animação sociocultural a mediação destas realidades! Concluindo-se, por ora, que uma das principais funções da animação sociocultural é a de animar o Espaço Público, a esfera pública.

Convidamos os discentes a investigar sobre o Espaço Público.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Animação Cultural Apresentação e Lição 1

Aulas de Animação Cultural 2008-2009
Segundo Ciclo

Mestrado de Práticas Culturais Para Municípios
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Apresentação e Boas Vindas

Bem-vindos às aulas de animação cultural, no âmbito do Mestrado de Práticas Culturais para Municípios.

Neste ciclo estamos convictos de que a grande maioria dos alunos frequentaram as aulas de Programação Cultural do ciclo anterior, disciplina de carácter obrigatório.

No entanto, haverá alguns alunos provenientes de outros mestrados e que terão optado por esta disciplina pelo que deveremos retornar a algumas das questões abordadas no ciclo passado de modo a enquadrar os novos colegas nas problemáticas da Cultura e das políticas culturais.

A todos, novos e antigos, as boas vindas ao mundo da Animação Cultural.

Manual de Estudo
Elegemos como manual de apoio para esta disciplina o livro de Jaume Trilla «Animação Sociocultural – teorias, programas e âmbitos» editado pelo Instituto Piaget e que, reunindo capítulos assinados por diversos autores, assegura uma visão global destas matérias na sociedade contemporânea. Reproduzindo perspectivas complementares umas das outras, quer por assegurarem pensamento convergente, quer por permitirem descobrir perspectivas divergentes, o manual aconselhado é um bom livro de base que não substitui a presença nas aulas, factor forte na ponderação da classificação final.
A bibliografia aconselhada vai ser comunicada ao longo das aulas.

Metodologia participativa
O seminário de Animação Cultural permite-nos um trabalho prático, apelando-se bastante para a participação dos discentes, estimulando-se o seu sentido crítico e a sua criatividade.

Lição 1

Andamento 1.

Visionamento crítico do vídeo «O Bando em Querença»

Relatório do visionamento numa perspectiva de Animação Cultural.


Andamento 2.

Enquadramento
Conceito de Comunidade.
Tipos ou classes de cultura.
Público e Comunidade.

Discussões
O «reconhecimento» e o «não-reconhecimento» na legitimação da cultura.
As contralegitimidades (expressão de Pierre Bourdieu, 1983) populares.
A questão da assinatura da obra de arte.

A questão da possibilidade do «não reconhecimento» por parte de certos grupos sociais da definição legítima de cultura, abrindo-se a reflexão a outros universos de referências, eventualmente estruturados e, por isso, legitimadores é, actualmente, extremamente pertinente. Consequência de uma multiplicação de géneros artísticos que se relativizam uns em relação aos outros, podendo-se questionar cada vez mais sobre o que é, afinal, a Cultura. Quando a economia e a cultura se unem cada vez mais, quando as populações na sua estruturação social têm gostos cada vez mais ecléticos, onde no mundo ocidental e mesmo na realidade paradoxal que é Portugal os públicos são mais cosmopolitas, havendo também mais educação e uma maior esteticização do quotidiano, é de pensar sobre a questão da cultura e da animação sociocultural, hoje. E como a animação sociocultural pode ter (e deve ter) um papel de mediação entre a arte, os artistas, as pessoas e as suas culturas estruturadas face à cultura oficial. E ainda a sua função no âmbito da educação informal, de extrema importância na construção de uma democracia desejavelmente mais participativa onde em cada sociedade ocidental mas também de outras partes do mundo, encontramos comunidades cada vez mais interculturais, fruto de uma globalização em que território, etnia e cultura se dissociam de modo sistemático.

A globalização. A perda de soberania do Ocidente. As questões da globalização no contexto do território, da etnia e da cultura, conducentes a outras histórias do mundo e a outras formas de representar o «outro». O centro e a periferia alteram as tradicionais regras do jogo. Diversos centros artísticos, cada um deles com possibilidade de diversos públicos, capazes de se afirmarem fora do controlo do centro, abrindo portas a outras propostas artísticas, numa aparente liberdade proporcionada por uma aparente mobilidade virtual. A mobilidade virtual não se substitui, na verdade, à mobilidade real – este novo capital da mobilidade real é fundamental na futura estruturação de relações sociais – pois há os que realmente vão e os que realmente não vão. E há-de se ir não só a territórios mas também «conviver» com outros modos de vida, outras histórias, dominar outras linguagens…na prática, por exemplo, a euforia pelos telemóveis não se reflecte no combate à pobreza – não é por ter telemóvel ou uma televisão digital conectada à Zon, que se vive melhor ou se combate a pobreza e as desigualdades sociais e se fica «on»!