quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Lição 6: A animação cultural como processo, estratégia e instrumento para o desenvolvimento

Nas notas do dia 11 de Dezembro, abordámos a animação cultural enquanto «processo», e agora vamos também abordá-la enquanto «estratégia» e «instrumento», dividindo nestas três componentes analíticas uma mesma realidade conceptual.
O que implica, e antes de avançarmos mais, fazer nova síntese conceptual no árduo trabalho de encontrar uma definição de animação cultural.

Convém neste momento alertar para o facto de podermos abordar a animação sociocultural em três distintas mas complementares modalidades: A Modalidade Social, a Modalidade Educativa e a Modalidade Cultural. Destas três modalidades se compõe a animação sociocultural.

Nas nossas aulas temos centrado o olhar na modalidade que dá nome ao nosso seminário: a modalidade cultural da animação. E interpretado essa modalidade na óptica do técnico municipal de cultura, relembramos uma vez mais.

Ora é no âmbito das referidas ópticas e perspectivas do parágrafo anterior, que importa agora sistematizar um pouco mais a informação.

A) A modalidade cultural da animação sociocultural, e chamando aqui o pensamento escrito no manual de estudo recomendado, afirma a animação com a função da promoção cultural, contribuindo para o desenvolvimento da expressão, da criatividade e da participação cultural e artística. Centra-se na actividade ou produto e acontece em espaços culturais como casas de cultura, bibliotecas, museus, centros culturais, etc.

B) A animação cultural como processo, estratégia e instrumento para o desenvolvimento. A animação cultural é um «processo» para uma cultura de intervenção, procurando gerar processos de participação; é uma «estratégia» a seguir para a implementação de um modelo de desenvolvimento local específico, que assenta numa participação colectiva geradora de responsabilização dos indivíduos na gestão e direcção dos seus próprios recursos; é «instrumento» a utilizar para estimular, motivar o exercício da participação dos cidadãos.

Queremos então dizer que as autarquias deverão criar espaços (físicos) e momentos (tempos) para o encontro das comunidades com as suas pessoas e das pessoas com as suas comunidades e estimular através também de iniciativas culturais a participação activa das populações alocando recursos materiais e humanos para promover essa participação; facilitando as iniciativas privadas que vão nesse sentido (estimulando a abertura de cafés e de esplanadas, sensibilizando para as artes de rua e no espaço público; valorizando a sinalética dos equipamentos espaços públicos e a divulgação de iniciativas associativas de forma digna e responsável, promovendo e valorizando o voluntariado, etc.).

Assumir uma cultura de intervenção e não apenas uma cultura de difusão, por um lado, promover uma cultura de intervenção e não apenas uma cultura de diversão, por outro lado, convida as autarquias (a óptica que ora nos interessa) a identificar objectivos e a adoptar metodologias de desenvolvimento cultural centradas nas actividades que promovem encontro e participação das pessoas e com as pessoas.

Quais os sentidos das actividades a implementar?

Trabalhar, pois, no sentido de dar às pessoas, estimular nas pessoas, a consciencialização de uma pertença global enquanto lógica centrada na vontade comum. No fundo evitar que as actividades e os acontecimentos "caiam" de repente e sem mais, em "cima das pessoas". Ora é pois a busca de um sentido, de um código, de um simbólico colectivo que há-de ser encontrado pelas pessoas no complexo mundo da incorporação dos sentidos, da quebra dos preconceitos, etc.

Repetimos: faz parte da animação cultural, enquanto processo, criar espaços de encontro para a comunicação entre as pessoas e os grupos; faz parte da animação cultural, enquanto estratégia, estimular a participação das pessoas mas responsabilizando-as pela gestão dos recursos comuns; faz parte da animação cultural, enquanto instrumento, estimular o exercício dessa participação através do diálogo, da negociação, da parceria associativa traduzida em apoio a associações, partidos políticos, instituições, redes inter-associativas, seminários, etc.

Convictos que estamos de que as actividades culturais tornam os territórios mais vivos, subscrevemos a ideia de que os territórios mais vividos culturalmente são mais atraentes para as populações que lá vivem e para as que os visitam; sedimentam um sentimento individual e colectivo de pertença e auto-estima; constituem uma campo aberto para as ligações com outras regiões ou territórios e com outras culturas associadas, facilitadoras da incorporação da inovação.

A animação cultural utilizada, enfim, como uma ferramenta especialmente útil para a implementação de projectos e programas de desenvolvimento integrado e participado. Vai, aliás, nesse sentido, a interpretação conjugada e desejável da Agenda 21 Local e da Agenda 21 da Cultura que explicitam melhor a ideia de que o desenvolvimento integrado e participado será um desenvolvimento sustentável. Quer dizer a dimensão cultural é um indispensável pilar do desenvolvimento sustentável ao lado da economia, da coesão social e do ambiente.

Agenda 21 Local é resultado da Conferência Eco 92, no Rio de Janeiro em 1992.
Agenda 21 da Cultura foi proclamada no âmbito do IV Fórum de Autoridades Locais para a Inclusão Social em Barcelona, Maio 2004

Com efeito, a animação cultural provoca e auxilia o aparecimento de artistas e de criadores empenhados no desenvolvimento de projectos e actividades culturais orientadas para as comunidades; a animação cultural contribui para a valorização dos bens patrimoniais, ao nível da sensibilização das populações para a preservação e valorização do património cultural (material e imaterial) ou mesmo para a sua revitalização, de acordo com novas necessidades sociais; a animação cultural encoraja o pensamento crítico, ao basear a sua intervenção na ideia de que todos podem e devem participar na construção da identidade cultural, combinando recursos locais com participação cultural, acentuando a partilha de responsabilidades entre as várias partes envolvidas e dando mais expressão à vida quotidiana das comunidades locais.

Localmente parece haver uma consciência cada vez maior de que as actividades culturais podem ser um motor para o crescimento económico e para a inclusão social e cultural, para a mudança de atitudes e de comportamentos relacionados com as novas formas de pensar e viver nos territórios, quer urbanos, quer rurais.

Quem são os intervenientes destes processos de vivificação cultural dos territórios?
Uma longa e talvez infindável lista de possibilidades mas, e no essencial, serão:
As pessoas
As instituições, das quais em destaque as autarquias
Associações e colectividades locais
Instituições sectoriais, como, por exemplo, museus
Universidades e centros de investigação
Operadores turísticos
Teatros, cinemas, galerias, cine-clubes
Outras parcerias (incluindo empresas, por exemplo)

As práticas culturais para os municípios, nome do nosso mestrado são, antes de mais, aquelas que permitem pensar e operar no alargamento da participação das pessoas na vida cultural. Pensamentos e actos que as políticas culturais municipais devem implementar, em nome da diversidade garantia de melhor liberdade.

A estes propósitos considero interessante a transcrição das seguintes palavras:

João Fernandes, director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves diz: «Os portugueses constroem muitos falsos consensos. Muito raramente lemos críticas de alguém que assuma a sua posição com frontalidade, sem receio de qualquer tipo de polémica (…). Um outro problema é o afunilamento cultural. Não obstante os portugueses estarem mais cientes de que o acesso à arte, à cultura, é também um direito, chega a ser penoso verificar que na sociedade portuguesa o apoio à criação artística é visto sob um prisma de subsídio de dependência». «Subsidiar as artes minoritárias», diz António Pinho Vargas é financiar os públicos minoritários e financiar o aumento da possibilidade de escolha, sob pena de haver um défice de cultura». Empenhado em descodificar os códigos de poder no campo artístico, Pinho Vargas estabelece uma divisão entre o antes e o depois dos anos 90. Até àquela década, a Fundação Gulbenkian dispunha de uma hegemonia tal que conseguia condicionar a expressão de diferentes opções estéticas. Depois, com os grandes eventos culturais organizados pelo Estado, como a Europália, a Lisboa Capital Europeia da Cultura, Expo 98, Porto 2001, abertura do Centro Cultural de Belém, Fundação de Serralves e Casa da Música, a Fundação deixou de ter o quase exclusivo e passou a ser uma instituição entre outras. Daqui decorreu, explica Pinho Vargas, «que o campo da música contemporânea, durante algum tempo concentrado em torno de Emanuel Nunes e Jorge Peixinho», passou a assistir a uma diversificação das escolhas. As instituições produziram alternativas e abriram-se a uma maior multiplicidade estética. «Dessa diversificação das tendências resultou uma maior possibilidade de expressão e, nesse sentido, de liberdade por parte dos compositores. Logo, o estado da liberdade é hoje muito melhor». In Revista Única, Expresso, 6 de Dezembro de 2008.

Sem comentários: