quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Lição 2 Desenvolvimentos das aulas anteriores

Lição 2
Síntese de algumas questões discutidas nas aulas.

Comunidade Vs Sociedade
A Animação sociocultural privilegia o conceito de «comunidade» ao de «sociedade» pois ela dirige-se a colectivos concretos; o tipo de intervenção é sempre muito contextualizado em territórios concretos de modo a favorecer relações comunitárias. Portanto, o âmbito, o tipo de intervenção e a finalidade da animação sociocultural referencia-se á ideia de comunidade.

Variações à volta dos significados de animação, animado, animador, animar
Animação = acto ou efeito de animar, vivacidade, entusiasmo, viveza.
Animado = dotado de animação, com alma, movimentado, entusiasmado.
Animador = aquele ou aquela que anima, o que anima, que faz nutrir esperanças.
Animar = dar alma, dar vida a…, alentar, encorajar, cobrar alento, resolver-se.
O jogo de significados permite-nos olhar para a animação sociocultural como um conjunto de iniciativas conjugadas e conjugáveis no sentido de contribuir para a resolução das pessoas entre si; apela à viveza e á participação das pessoas, ao seu movimento, à sua existência com alma.

Os modelos de cultura
Discutimos a questão do modelo hierarquizado de cultura, que contempla a sua classificação em 3 tipos ou classes, a cultura oficial, a cultura de massas e a cultura popular assumindo que, em regra, se tem correlacionado a animação sociocultural com a cultura popular. Resta saber o que é a «cultura popular».
Considerámos que posteriormente se terá passado para um modelo sincrético ou de cruzamentos, entre as anteriores divisões ou tipos de cultura, mas estamos em crer que novas divisões se estabelecerão, nomeadamente em consequência de uma cada vez mais evidente divisão entre mobilidade real e mobilidade virtual, conduzindo a dois tipos de desenvolvimento social (logo cultura) distintos… aliás, o que aqui também nos interessava é enquadrar o pensamento no sentido de estabelecer uma relação entre cultura e o contexto da história social, da qual aquela é consequência, por um lado, e indutora, por outro.

Comunidade Vs Público Vs Massa Vs Comunidade Global Vs Audiências Parciais
Da coincidência quase perfeita entre Comunidade e Público, onde havia um código comum de decifração e de criação, passou-se para uma comunidade com diferentes públicos, correspondentes a divisões sociais profundas e não comunicantes, evoluindo-se para uma sociedade de consumo em que grande parte dos diferentes públicos se envolveu na constituição de uma massa útil às indústrias culturais e que permitiu, por sua vez, a criação da chamada comunidade global a qual, porém, se viu forçada a evoluir no sentido das audiências parciais... Fruto do desejo de raridade e de diferença – se não podes ser o melhor, ao menos sê diferente!... Ainda assim, ao serviço das industrias culturais.

Massa – Comunidade – Comunhão
A importância da definição de formas de sociabilidade de Georges Gurvitch e do seu conceito de Fusão Parcial ou «Nós». Consoante o seu maior ou menor grau de fusão, assim estaremos face a um «Nós» confundível com uma Massa, com uma Comunidade ou com uma Comunhão.
As comunidades serão mais estáveis e permanentes do que as massas e do que as comunhões. Consistem no querer ou no dever viver em conjunto de um grupo permanente, estruturado, possuindo domínios comuns, tradições, costumes. O grau de fusão é mais forte do que se passa nas Massas mas mais fraco do que aquele que acontece na Comunhão. Mas como o pressuposto da Comunhão é, em regra, a existência de uma «crise», o tipo de fusão e de «nós» decorrente da Comunidade é o que mais nos orienta neste contexto da animação sociocultural.

Art Worlds
ou Teoria dos Mundos da Arte, defendida por Howard Becker em 1982, interessa-nos devido à quebra de «aura artística» do artista e da sua arte. Devido à dessacralização do trabalho artístico e do “génio individual do artista” que essa teoria provoca, por via do “alargamento” da noção de arte e de artista – assumindo-se que a obra de arte inclui todos os que concebem, os que executam, os que fornecem os materiais e os que formam o público. O que Becker propõe é «uma análise do espaço artístico cujo foco de interesse se encontra mais na cooperação entre os indivíduos que realizam as obras do que nas obras elas próprias, ou nos seus criadores convencionalmente definidos». O artista é apenas mais um entre muitos outros sem os quais o seu trabalho não existe. Por outro lado, toda a importância dos «comportamentos desviantes» face aos «comportamentos esperados» que Becker também estudou, é da máxima importância para a colocação das problemáticas da animação sociocultural. Como, aliás, também já vimos no ciclo anterior a propósito da Programação Cultural.

A urgência da transcendência da noção de cultura popular
Cremos fundamental que a Animação Cultural reflicta sobre a noção contemporânea de cultura popular já afastada do antigo modelo de alta, média e baixa cultura, ou cultura popular. Há que ter capacidade para «descontextualizar» e «recontextualizar» situações e obras, significados das culturas populares, assumindo o jogo das intertextualidades ou da relação entre textos, o jogo de citações e de pastiches, no sentido de que é competência do artista criar obras a partir da reunião e da colagem de trabalhos pré-existentes. Ou seja, é possível aceitar a música pimba, por exemplo, na perspectiva de que ela nos diz algumas coisas sobre os modos de vida de determinadas pessoas…O que nos inspirou a ida ao cinema…

Visionamento do filme «Meu querido mês de Agosto» de Miguel Gomes.

O conceito de animação sociocultural - o nosso primeiro contributo estruturado, a partir da noção da Unesco
Avançámos também com a uma primeira definição de animação sociocultural, socorrendo-nos da definição da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura: «a animação sociocultural é um conjunto de práticas sociais que têm como finalidade estimular a iniciativa, bem como a participação das comunidades no processo do seu próprio desenvolvimento e na dinâmica global da vida sociopolítica em que estão integrados». Para reforçar ideias anteriores de que Política, Participação, Espaço Público e Animação Sociocultural são conceitos que se sustentam mutuamente, cabendo à animação sociocultural a mediação destas realidades! Concluindo-se, por ora, que uma das principais funções da animação sociocultural é a de animar o Espaço Público, a esfera pública.

Convidamos os discentes a investigar sobre o Espaço Público.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Animação Cultural Apresentação e Lição 1

Aulas de Animação Cultural 2008-2009
Segundo Ciclo

Mestrado de Práticas Culturais Para Municípios
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Apresentação e Boas Vindas

Bem-vindos às aulas de animação cultural, no âmbito do Mestrado de Práticas Culturais para Municípios.

Neste ciclo estamos convictos de que a grande maioria dos alunos frequentaram as aulas de Programação Cultural do ciclo anterior, disciplina de carácter obrigatório.

No entanto, haverá alguns alunos provenientes de outros mestrados e que terão optado por esta disciplina pelo que deveremos retornar a algumas das questões abordadas no ciclo passado de modo a enquadrar os novos colegas nas problemáticas da Cultura e das políticas culturais.

A todos, novos e antigos, as boas vindas ao mundo da Animação Cultural.

Manual de Estudo
Elegemos como manual de apoio para esta disciplina o livro de Jaume Trilla «Animação Sociocultural – teorias, programas e âmbitos» editado pelo Instituto Piaget e que, reunindo capítulos assinados por diversos autores, assegura uma visão global destas matérias na sociedade contemporânea. Reproduzindo perspectivas complementares umas das outras, quer por assegurarem pensamento convergente, quer por permitirem descobrir perspectivas divergentes, o manual aconselhado é um bom livro de base que não substitui a presença nas aulas, factor forte na ponderação da classificação final.
A bibliografia aconselhada vai ser comunicada ao longo das aulas.

Metodologia participativa
O seminário de Animação Cultural permite-nos um trabalho prático, apelando-se bastante para a participação dos discentes, estimulando-se o seu sentido crítico e a sua criatividade.

Lição 1

Andamento 1.

Visionamento crítico do vídeo «O Bando em Querença»

Relatório do visionamento numa perspectiva de Animação Cultural.


Andamento 2.

Enquadramento
Conceito de Comunidade.
Tipos ou classes de cultura.
Público e Comunidade.

Discussões
O «reconhecimento» e o «não-reconhecimento» na legitimação da cultura.
As contralegitimidades (expressão de Pierre Bourdieu, 1983) populares.
A questão da assinatura da obra de arte.

A questão da possibilidade do «não reconhecimento» por parte de certos grupos sociais da definição legítima de cultura, abrindo-se a reflexão a outros universos de referências, eventualmente estruturados e, por isso, legitimadores é, actualmente, extremamente pertinente. Consequência de uma multiplicação de géneros artísticos que se relativizam uns em relação aos outros, podendo-se questionar cada vez mais sobre o que é, afinal, a Cultura. Quando a economia e a cultura se unem cada vez mais, quando as populações na sua estruturação social têm gostos cada vez mais ecléticos, onde no mundo ocidental e mesmo na realidade paradoxal que é Portugal os públicos são mais cosmopolitas, havendo também mais educação e uma maior esteticização do quotidiano, é de pensar sobre a questão da cultura e da animação sociocultural, hoje. E como a animação sociocultural pode ter (e deve ter) um papel de mediação entre a arte, os artistas, as pessoas e as suas culturas estruturadas face à cultura oficial. E ainda a sua função no âmbito da educação informal, de extrema importância na construção de uma democracia desejavelmente mais participativa onde em cada sociedade ocidental mas também de outras partes do mundo, encontramos comunidades cada vez mais interculturais, fruto de uma globalização em que território, etnia e cultura se dissociam de modo sistemático.

A globalização. A perda de soberania do Ocidente. As questões da globalização no contexto do território, da etnia e da cultura, conducentes a outras histórias do mundo e a outras formas de representar o «outro». O centro e a periferia alteram as tradicionais regras do jogo. Diversos centros artísticos, cada um deles com possibilidade de diversos públicos, capazes de se afirmarem fora do controlo do centro, abrindo portas a outras propostas artísticas, numa aparente liberdade proporcionada por uma aparente mobilidade virtual. A mobilidade virtual não se substitui, na verdade, à mobilidade real – este novo capital da mobilidade real é fundamental na futura estruturação de relações sociais – pois há os que realmente vão e os que realmente não vão. E há-de se ir não só a territórios mas também «conviver» com outros modos de vida, outras histórias, dominar outras linguagens…na prática, por exemplo, a euforia pelos telemóveis não se reflecte no combate à pobreza – não é por ter telemóvel ou uma televisão digital conectada à Zon, que se vive melhor ou se combate a pobreza e as desigualdades sociais e se fica «on»!