A questão que ora nos convoca é a seguinte: Através da promoção de actividades culturais é possível recriar vida e sentido colectivos em espaços que deles se encontram esvaziados? No âmbito da animação cultural a cultura surge como um dos recursos estratégicos para dinamizar e potenciar o envolvimento, a participação, dos cidadãos na animação e requalificação dos territórios, contribuindo assim para o desenvolvimento e para a sustentabilidade desses mesmos territórios. E contribuirá também para, progressivamente, transformar o Espaço Público num espaço de maior participação, capaz de expressar sentimentos colectivos.
Com efeito, um território, ao deixar de ser vivido, deixa de ter sentido.
Assim a animação cultural deve contribuir para a afirmação dos sentidos possíveis de cada e em cada território demarcado. Entendendo o território, cada território demarcado, como um espaço vivido onde se opera efectivamente desenvolvimento. E desenvolvimento é, antes de mais, neste contexto, a possibilidade de construir laços de cidadania aberta, activa, participada, com vida, segurança, auto-estima, diversidade, respeito por si próprio e pelos outros, segurança.
Em regra a Animação Cultural é chamada a intervir, no âmbito municipal, em zonas da cidade esquecidas e mal amadas, com pessoas diferentes e com muitas pessoas. Mas passámos a ideia de que compete aos técnicos de acção social e de acção cultural, em qualquer autarquia, interrogar todos e quaisquer territórios à sua guarda, pois em todos eles podem existir, e existem com certeza, situações de não vivência, de não participação, de humilhação, de solidão, de incomunicabilidade, de medos. Porque não pensar na zona do Restelo, em Lisboa, para uma intervenção de animação cultural? Que tipo de problemas encontraremos? Que pontes possíveis entre o Restelo e o Martim Moniz?
Registamos desde já a preciosa informação passada pela Ágata Xavier durante a aula, pertinente e inspiradora: muitas raparigas chinesas que habitam no Martim Moniz vão trabalhar para casas do Restelo, de modo a ensinarem a língua chinesa aos filhos pequeninos dessas famílias abastadas!
Frémont, em 1976, escrevia. «O território é, antes de mais, o resultado da materialização das relações que se estabelecem no espaço e com o espaço pelas comunidades que o habitam, ou seja, é o conjunto das inter-relações sociais espacializadas». Remete-nos pois para a noção de espaço vivido, com práticas e vivências sociais que nos remetem para o domínio das representações e dos imaginários. (A. Frémont, 1976, La Région, espace vécu, PUF, Paris)
Convém então compreender, explorar, a noção de habitabilidade, de habitação de um lugar – como sabemos se alguém habita um espaço? Esta questão não foi abordada na aula, nestes termos, mas vem a propósito das relações mais ou menos efémeras ou definitivas que se estabelecem entre as populações que habitam o Martim Moniz e o espaço do Martim Moniz. Sentem que habitam esse espaço? Querem habitar esse espaço? Então o que significará «habitar»?
Invocámos a noção de «não-lugar» de Marc Angé. Um «não-lugar» é um espaço de passagem incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade, um espaço não-relacional e onde a herança cultural dificilmente pode existir. Um território que, apesar de tudo, é um território vivido se bem que de forma sofrida e em solidão. Vivido por indivíduos que em muitas situações desenvolvem laços de solidariedade, mas que, no entanto, são relações efémeras e voláteis, que existem enquanto aquelas pessoas permanecem naquele espaço e que tal como surgiram, acabam e desaparecem. (Augé M, 1992, Non-Lieux: introduction à une anthropologie de la surmodernité, Seuil, Paris).
Estas reflexões foram sempre colocadas em referência concreta ao território do Martim Moniz, objecto do trabalho final de avaliação.
Sobre a estruturação do processo de trabalho com vista a detectar que tipo de intervenção de animação cultural realizar, e embora o manual de estudo recomendado tipifique metodologias processuais para desenvolvimento e implementação de projectos de intervenção, sintetizámos no essencial os aspectos seguintes, uma vez que os nossos discentes são, ou serão, técnicos municipais de cultura e não profissionais da animação sociocultural.
A) Enquadramento - Qualquer técnico municipal deve procurar enquadrar o território onde se pretende intervir partilhando informação sobre o território e o tecido humano que nele encontra. Deve estar disponível para todas e quaisquer interferências exteriores resultantes dos contributos locais, indagar de forma directa e presencial a vida quotidiana do território seleccionado, concluindo pela necessidade ou não de uma intervenção municipal no sentido de potenciar mais, melhor ou diferentemente, e porquê, as práticas de vida desse determinado território, qualitativamente apreciado e indagado.
B) Intervenção - Fases do processo sobre o território intervencionado
Fase I – Reconhecimento – As primeiras visitas e as primeiras impressões que permitirão a criação de um embrião de processo. Exige-se a mais cuidadosa e rigorosa análise do território onde se pretende intervir, conscientes de que esse território é constituído por factores essenciais, com destaque para as pessoas que o fazem, interpretam e experienciam quotidianamente, a sua topografia, a sua toponímia, a sua imagem urbana, as suas idiossincrasias especiais. Para lá do reconhecimento do território, o reconhecimento da História e das “estórias” desse território. Fase II – Pensamento e Preparação – Recolhidas as primeiras impressões, pensar sobre elas, compará-las com casos nacionais e internacionais, organizar encontros e reuniões com vista ao estabelecimento de parcerias académicas e institucionais, parcerias associativas, escolares, amadoras, profissionais, etc.
Fase III – Apresentação mediática e local do que se pretende fazer nesse território ou espaço público.
Fase IV – Produção aberta pensando no conjunto de actividades e de eventos de animação cultural a concretizar, recolhendo e programando iniciativas dos habitantes do território.
Fase V – Evento – realização em determinadas datas de um conjunto de actividades a que chamamos de Evento e que permitirá a apreciação e participação do público habitante e forasteiro enquanto «espectador» desse evento. A arte chamada a incentivar e a provocar a animação urbana enquanto reflexão sensível e surpreendente, criando assim surpresas. A arte que não deverá ser meramente ornamental mas que seja capaz de entrar no jogo do ambiente de instalação ou apresentação.
Fase VI – Avaliação – Indispensável em qualquer caso de animação cultural.
Ao longo de todo o processo o mais importante é a criação de um capital de confiança que não pode ser desbaratado em momento algum, mesmo e sobretudo, após a realização do evento.
Sempre que se verifica a ocupação do espaço público devemos pensar que essa ocupação deve ser feita de modo responsável, enquanto espaço de cidadania;
Que deve ser estabelecida uma relação de compreensão e complementaridade entre instituições, profissionais e públicos, a partir de um substrato de carácter ético, estruturante do processo.
Que o Evento no seu antes, durante e depois consiga trazer algo de diferente, de estimulante, ao quotidiano das pessoas que habitam o território. Procurando dialogar com as pessoas todas das mais simples às mais importantes. Levar as pessoas a olhar, a ouvir ou até a criar, a intervir, a debater.
Programar eventos culturais de carácter transdisciplinar.
Programar eventos ou projectos estruturantes.
Criar e projectar uma imagem gráfica que delimite o território de intervenção, com sinalética específica, pontos de informação, mapas com percursos e praças específicas, alteração momentânea do nome das ruas e das praças, etc.
Elaboração contínua de registos e edição de livros ou outros suportes de memória futura.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
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