Tenho procurado encontrar um conjunto de princípios que orientem o acto e a actividade de programar. Considero que quer para o desempenho do acto de programar, quer para o desempenho da actividade de programar, é necessário que o Programador esteja atento a 7 princípios ou mandamentos orientadores da sua prática:
1. O Princípio da Razão e da Intuição, libertando-se o Programador o mais possível do "dogmático". Reabilitamos assim a velha ideia de que a intuição pressupõe uma relação directa e sem mediação entre o objecto percepcionado e o sujeito que o percepciona. É-nos útil este pressuposto para reforçar a ideia de que o Programador deve seguir o seu caminho, libertando-se o mais possível de preconceitos e de dogmas ou verdades outras que não a sua. O que não sendo fácil, é fundamental - encontrar as suas verdades, logo as suas crenças. É à luz dessas crenças pessoais e dessas suas visões racionais e intuitivas próprias do mundo que o Programador desempenhará o seu acto programático e a sua actividade programática.
2. O Princípio da Contemplação, no sentido de que o Programador deve ser capaz de assumir um "comportamento desinteressado" para a obtenção de um "conhecimento desinteressado", de modo a poder viver uma experiência estética e optar esteticamente. E assim disponibilizar-se à contemplação. A necessidade de contemplar uma realidade como parte de um processo de uma recriação fazendo surgir a realidade através da alusão e não da ilusão. Fazendo surgir a realidade através de um conjunto de sugestões, de referências, de um modo vago ou mesmo indirecto...Isto por um lado. Por outro lado, ao contemplar desinteressadamente a realidade o Programador deve deixá-la impôr-se - Da sua contemplação desinteressada às suas crenças pessoais há uma equação a estabelecer. Da surpresa, da dúvida, do fascínio da descoberta a partir da contemplação, até à necessidade de seleccionar conteúdos e actividades, sendo essa selecção uma afirmação, justificável argumentativamente, a partir das recriações da realidade que o programador possa e consiga fazer.
3. O Princípio da Impressão, que apela para a necessidade de o Programador se abrir a sensações sem se preocupar apenas com a necessidade de contar histórias; que esteja disponível para a procura de "efeitos" e de "sensações" - de impressões fortes ainda que, muitas vezes, subtis. Mas que o farão sentir um "je ne sais quoi", uma impressão criadora, desestabilizadora face ao dogma. O programador não deve ter receio de que muitas vezes a descoberta que faz seja uma descoberta que vai fazendo, pois o seu trabalho é um trabalho inacabado e antes de se preocupar em contar histórias, preocupe-se em explorar as pressões sensoriais, deixando-se guiar por uma procura mental séria mas divertida do efeito do momentâneo e da sensação.
4. O Princípio da Desordem Metodológica, que tendo muito por onde se desenvolver nos apela à necessidade do Programador pensar na desordem mais do que na ordem, a procurar mais o pensamento divergente do que o pensamento convergente. O ponto de vista da desordem real ou provável, ou possível. A atenção que o Programador deve dar ao conflito, à instabilidade, à diversidade... de modo a descobrir fracturas ou possibilidades de diversidade. E não ficar aprisionado a uma programação de consensos, pois esta raramente é inovadora ou criativa. Acreditamos que o Programador deve privilegiar as metodologias de valorização das "vias do desvio"e do empolgamento dos "processos" (modos de fazer) mais do que privilegiar aquelas outras metodologias que defendem a glorificação dos resultados imediatos. A desordem metodológica facilita, segundo José Machado Pais, «o desenvolvimento dos nossos sentidos relacionais e permite-nos caminhar para uma maior democraticidade, para uma maior controvérsia, para uma maior diferenciação e para uma menor integração (em sistemas dogmáticos dominantes ou tendencialmente dominantes). Essa desordem pode ser inspiradora para o desenho de uma ou de várias narrativas programáticas.
5. O Princípio do Sentimento ou da Inquietação. Chama a atenção para a importância de o Programador se deixar influenciar pelo Subjectivo e deixar-se inquietar com ele, aceder à ideia de que o Sentimento é a fonte das emoções! E que estas são bem vindas para que uma Programação possa existir, também, com esta dimensão do espírito humano - Tendo em conta que a dimensão espiritual da vida humana se compõe de três dimensões - o intelecto, a vontade e o sentimento!
Sinto, logo programo! Quem sente inquieta-se e essa inquietação pode ser inspiradora de uma programação.
6. O Princípio da Inocência. Apela à necessidade de o Programador procurar de quando em quando, a sua inocência e programar sem barreiras, pecados, inibições ou constrangimentos. Apela-se à «inocência dos olhares», de modo a manter-se a frescura dos olhares. Procure-se essa capacidade de recuperar a inocência enquanto liberdade de quem não tem de tomar decisões; enquanto prazer e convicção de quem se empolga por causas; enquanto disponibilidade para a revelação e para a interpretação (apreciação) das qualidades do Humano e de cada humano. Claro que o Programador não deve ser ingénuo, excessivamente crédulo ou parvo. Mas aqui não se confunde inocência com ingenuidade! Assumam-se os interesses do Programador, mas ele que se tente libertar deles para ver mais além... Sem a procura de um certo grau de inocência, será mais difícil ao Programador deixar fluir todas as emoções, factos e sinais da realidade e focar melhor o objecto do seu trabalho!
7. O Princípio da Interpretação. Conclui este conjunto de princípios, embora esta ordem hierárquica não tenha qualquer razão especial. Isto porque todos estes sete princípios são partes de um todo, que é, afinal, a atitude técnica do Programador para que o seu acto e a sua actividade de programar consigam afirmar um estilo, uma identidade, uma visão do mundo e do estado das coisas, por um lado e, por outro lado, consigam corresponder à realidade de uma entidade circunstancial por ele identificada, caracterizada e transformável, a partir da confiança nele depositada por essa entidade circunstancial e em função de um Desígnio legitimador.
Portanto, espera-se do Programador a capacidade de interpretar os diversos sinais que a realidade circunstancial lhe transmite e optimizá-los em função do Desígnio identificado. Ou seja, tanto ou mais do que a recolha ou a identificação de factos ou outros sinais, importa a capacidade que o Programador tem de interrogar esses factos ou sinais e o que eles revelam, de modo a poder, a partir deles e da interpretação que deles faça, compreender que programação, neste caso cultural, faz sentido no e para o Município. Da sua interpretação nascerá depois a sua narrativa - a sua organização de conteúdos artísticos e culturais em função de uma determinada narrativa. É também a partir deste princípio que compete ao Programador identificar, classificar, sistematizar e catalogar obras artísticas.
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