quarta-feira, 3 de junho de 2009

Aulas de Programação Cultural 2009 Primeira parte

Carta aberta aos estudante da disciplina de Programação Cultural

Estimadas alunas e alunos,
Na impossibilidade de desenvolver em tempo útil as matérias leccionadas neste semestre de 2009 no âmbito da disciplina de Programação Cultural uma vez que não era suposto estar a leccionar, este ano, esta disciplina, considero ainda assim útil publicar algumas sugestões sobre matérias e assuntos abordados e que poderão e deverão por vós ser aprofundados consoante o posicionamento que queiram dar ao vosso trabalho e, também, a futuros trabalhos no ãmbito da programação Cultural, e nomeadamente para Municípios.
Estou a escrever directamente como se estivesse a falar convosco, desculpem por isso alguns atropelos, depois corrigirei quando oportuno ou quando vocês me fizerem perguntas, sugestões, comentários ou me apresentarem dúvidas.
Começando pelo princípio, importa-me sobretudo que ponderem correctamente sobre o conceito de programação cultural como um conceito polissémico; e, nesse sentido, o identifiquem e caracterizem enquanto «acto» e enquanto «actividade». Pessoalmente tenho defendido que o acto de programar é um acto de criação, enquanto a actividade de programar é uma actividade de mediação. Vimos várias vezes, e em várias aulas, esta questão. Claro que poderemos ainda reflectir sobre a programação cultural enquanto função, enquanto instrumento, etc. mas a mim, e para já, é na tensão entre um acto de criação e uma actividade de mediação que me importa colocar o pensamento. Pois toda a programação cultural acontecerá a partir de um conflito entre a vontade criativa e criadora do programador e do seu acto de programar e a expectativa de mediação que a actividade de programar pressupõe uma vez que ela acontece a partir da inter-relação entre o programador e as pessoas para as quais este programa.
Este conflito de interesses, esta tensão que existe em toda a programação cultural faz-nos pensar o quão importante é a negociação enquanto característica da actividade mediadora que a programação cultural é, mas também o quão inspiradora, do ponto de vista criativo, ela pode ser para o acto criador do programador cultural - forçando-o a re-pensar os seus métodos e as suas escolhas, não abdicando do essencial do seu pensamento, talvez até refinando-o, de modo a que o essencial se destaque do acessório, secundário, provavelmente dispensável, a bem do sucesso da negociação.
Ao longo dos últimos anos tenho tentado estruturar o pensamento sobre Programação Cultural a partir de um eixo triangular, um pré-pressuposto de uma técnica de programar, trasmissível.
Desse modo digo que toda a Programação Cultural pressupõe a existência de um Programador, de uma Entidade Circunstancial e de um Desígnio Cultural. É da relação entre estes três eixos ou pontos de força, que se estrutura o conteúdo de uma programação ou se desenvolve um pensamento e uma narrativa programática. Em várias aulas falámos disto.
Não há programação sem um programador, ou um conjunto de programadores, depende da amplitude da programação a reflectir; não há programação sem uma Entidade Circunstancial á qual a programação se refira - um teatro, uma cidade, um festival, uma biblioteca,por exemplo e não há programação cultural sem se identificar, claramente um Desígnio Cultural em função do qual se desenha uma programação cultural.
Reparem que ora falo de programação ora falo de programação cultural - propositadamente. Pois pode haver programação sem Desígnio Cultural - ela não será, no entanto e a meu ver, uma programação cultural. Será tão só uma programação. Recordem então a aula em que explicámos como há uma diferença substancial entre uma programação administrativa, de mera calendarização de eventos, e uma programação cultural - aquela que selecciona eventos em função, de acordo, com uma narrativa programática, decorrente da capacidade criadora do programador, da entidade circunstancial para a qual se programa e do desígnio cultural que previamente legitima as selecções feitas pelo programador.
Também se recordarão que, para o encontro desse desígnio cultural, apelei para a necessidade de nos entendermos sobre este tão cada vez mais amplo conceito que é o conceito de Cultura. O que é a Cultura à qual a busca do Desígnio Cultural remete e sem o qual, afinal, não haverá Programação Cultural? Partilhei convosco um conceito, possível, de Cultura - o conceito difundido pela Unesco nos já remotos anos 80 do século passado. Mas poderão procurar outros conceitos e entendimentos que auxiliem as vossas argumentações nas vossas dissertações. Agora, pessoalmente, procuro conceitos de Cultura que me auxiliem a justificar a razão pela qual considero que só há desenvolvimento cultural quando há simultaneamente dinamização cultural e difusão cultural, pelo que a minha programação cultural sempre se preocupa, e face a cada entidade circunstancial em concreto na qual esteja a trabalhar, com conteúdos ou eventos, capazes de, isoladamente ou em conjunto uns com os outros, potenciar o desenvolvimento cultural em ambas as perspectivas - na perspectiva da dinamização cultural e na perspectiva da difusão cultural. Estas matérias, aliás serão de novo retomadas e mais discutidas no âmbito do seminário de Animação Cultural no próximo semestre.
Ou seja, há consequências práticas imediatas (no tipo de espectáculos e actividades a programar, seleccionando uns espectáculos e não outros, no tipo de visibilidade e notoriedade alcançáveis, no tipo de Orçamentos disponíveis, etc.) em razão do conceito de Cultura que defendamos. O qual justifica e legitima que a nossa programação, em determinada entidade circunstancial, seja ou não seja uma programação cultural.
Por tudo isto é nas pessoas em concreto para as quais ou com as quais se vai pensar uma programação, que encontramos a génese de qualquer Desígnio Cultural. E, naturalmente, por força de razão, a existência de uma programação cultural.
Portanto, o importante, são as pessoas. Sem elas, a meu ver, não encontraremos um desígnio cultural legítimo e legitimador.
E por isso defendemos que a Programação Cultural se deve servir de uma metodologia de trabalho que antes de mais se preocupe em conhecer as pessoas. As pessoas "em geral" que coexistem connosco no nosso espaço e no nosso tempo (na nossa contemporaneidade) e as pessoas "em concreto" que coexistem connosco no mesmo espaço circunstancial, mas que vivem em outros tempos ou, se no mesmo tempo, em diferentes velocidades.
Por isso, para lá de dados quantitativos, interessa-nos recolher dados qualitativos sobre as pessoas - conhecer qualitativamente as pessoas da entidade circunstancial para a qual vamos ou estamos a programar, de modo a desenhar o Desígnio Cultural dessa entidade circunstancial da forma mais apta ao nosso objectivo de Desenvolvimento Cultural. Por isso, a nossa insistência na Sociologia qualitativa.

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